Aos nossos filhos

Aos Nossos Filhos

Elis Regina Composição: Ivan Lins/Vitor Martins

Perdoem a cara amarrada,

Perdoem a falta de abraço,

Perdoem a falta de espaço,

Os dias eram assim…

Perdoem por tantos perigos,

Perdoem a falta de abrigo,

Perdoem a falta de amigos,

Os dias eram assim…

Perdoem a falta de folhas,

Perdoem a falta de ar

Perdoem a falta de escolha,

Os dias eram assim…

E quando passarem a limpo,

E quando cortarem os laços,

 E quando soltarem os cintos,

Façam a festa por mim…

E quando lavarem a mágoa,

 E quando lavarem a alma

E quando lavarem a água,

Lavem os olhos por mim…

 Quando brotarem as flores,

Quando crescerem as matas,

Quando colherem os frutos,

Digam o gosto pra mim…

Digam o gosto pra mim…

http://www.youtube.com/watch?v=jWWOMrrtNfw&feature=player_embedded#!

 Eu estava ouvindo essa música do Ivan Lins e comecei a pensar…

Meus filhos estão crescendo.

Um com 11 anos e outro com 9.

Tudo aconteceu muito depressa. Já não sou mais o herói, me transformei num amigo. É dificil passar por essa transição, pois o herói reina sozinho, absoluto na admiração e respeito que lhe pertencem… O amigo é mais um de muitos. Agora tenho que conquistar meu espaço, disputar com os “outros” amigos o desejo dos meninos de ficarem comigo. Como é duro disputar essa concorrência!

Mas ao mesmo tempo, é bom ver os meninos crescendo em seus círculos que convivência que vão ficando cada vez maiores e complexos.

Daqui a pouco tempo eles serão adolescentes. Vão questionar tudo aquilo que eu lhes disser para fazer, vão tentar encontrar outros caminhos e fórmulas para conviver com as minhas regras. Vão tentar mudar até as regras! Não vai ser fácil. Nem prá mim e nem prá eles. Serei questionado, desafiado e até derrotado. Minha autoridade vai ser dissolvida aos poucos. Um pai tem que ser tolerante nessa hora. Tem que ter paciência pra suportar ser considerado obsoleto pelos filhos, pois só assim eles poderão se sentir fortes para aprender a viver por si mesmos.

Eu me lembro da minha adolescência. Fui um desses tipinhos questionadores e abusados que se alimentam com a ilusão de que podem redescobrir todos os segredos e mistérios da vida. Adorava colocar o dedo no nariz dos meus pais… Mas eles suportaram isso, pois sabiam que um homem estava se formando ali e que fazia parte do meu desenvolvimento adquirir um espírito inquieto e a vontade de superá-los.

Me lembro que os meus pais eram a imagem de tudo o que eu não queria ser. Eram antiquados, ultrapassados, obsoletos. Eu vivia falando: “mas a mãe dele deixa… o pai dele não se importa…” Nem pensava que isso podia doer nos ouvidos dos meus pais. Agora eu estou aqui, com medo de que meus filhos sejam como eu fui, com medo da dor que fatalmente eles me farão sentir.

 Sei que eles vão me questionar. Vão descobrir os meus furos. Vão apontar os meus erros. Vão me desafiar com o seu conhecimento. E isso vai ser dificil. Mas necessário e importante.

Depois virá a juventude e eles se transformarão nos reis do pedaço. A vida deles começando e eu parando para assistir, torcendo para que tudo dê certo. Ainda terei a oportunidade de dar alguns conselhos, espero que eles sejam aceitos.

Acho que tudo isso faz parte do crescimento. O ser humano recebe todo o cuidado dos pais e depois, prá viver a sua própria vida, precisa romper com essa proteção toda e assumir sua própria vida. Se não fizer isso, nunca será maduro, nunca vai se responsabilizar por nada. O filho precisa romper as amarras do porto seguro dos pais e enfrentar o oceano da vida. Tem sofrimento, tem desafio, tem derrota, tem dor… Mas tem conquista, tem recompensa, tem crescimento.

Me lembro do dia em que meu filho nasceu. Uma grande mudança dentro de mim. Comecei a pensar mais nos meus pais. Fui percebendo como é dificil assumir um posto de tamanha responsabilidade.

O tempo está passando, a vida vai se desenrolando e uma coisa interessante vai acontecendo. O adolescente que eu fui, vai se reconciliando com seus pais. Cada dia que passa, percebo que meus pais me deram tudo o que possuiam de melhor. Nunca fui privado de nada, pois me deram até a ultima gota do que podiam me dar. E não foi pouco nem insuficiente…

 Hoje vejo nos meus pais a alegria de poder contar com os filhos que eles formaram. Se deleitam com nossas conquistas e nos consolam em nossas derrotas, mas acreditam em nós.

Mas algo mudou. Eles não querem mais ser os donos da verdade, nem os mais fortes da familia. Eles querem ser amados como nos amaram e cuidados como nos cuidaram. O ciclo da vida se completa. O amor oferecido lá atras, agora precisa ser retribuido. Os papéis se invertem, mas a base de tudo permanece: o amor.

Fonte: Ênio Borba

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