AVATAR e a espiritualização da natureza

O filme mais caro da história. A segunda maior bilheteria de todos os tempos. Marco tecnológico. De todos os ângulos, Avatar é um superlativo.

Mas o que tanto atraiu a atenção das pessoas?

A história? Duvido. Vejamos num resumo: um soldado semi-inválido e cansado de combates acaba indo para um mundo distante e lá ele descobre a harmonia de um povo em contato com a natureza, se apaixona por uma nativa e enfrenta preconceitos e tensão bélica. Isso faz de Avatar uma versão em 3-D de Dança com Lobos, como estão dizendo.

Para o crítico Renato Silveira, Avatar é “a vanguarda da tecnologia oposta ao lugar-comum de um modelo narrativo típico de filmes de fantasia”. Assim, todo mundo sabe de antemão que o herói ficará encantado com uma nova cultura pura, encontrará um amor puro, uma forma de vida pura em contraste com a ganância dos terráqueos e com o vilão que ele mesmo terá que enfrentar. O enredo é, digamos, puro lugar-comum.

O que não é comum é a inovação tecnológica desenvolvida para esse filme, que teria avançado na criação de softwares para a tecnologia do efeito tridimensional no cinema.

O senão de Avatar me parece ser de outra ordem. Não está na tecnologia nem no roteiro. Está no subtexto ideológico-religioso do filme. Para o professor de cinema Rodrigo Carreiro, “Cameron se certificou de incluir uma boa dose de preocupações ambientalistas (um tanto rasteiras, aliás), para dotar o filme de atualidade e fazê-lo politicamente relevante”.

Até aí, nada de mais. A ecologia faz parte da agenda política e social de países e organizações e tem agregado um componente de religiosidade à ideologia ambientalista. Vou dividir essa questão em duas partes:

A romantização da natureza: o filme transcorre no planeta Pandora, onde os seres nativos (os Na’vi) são gigantes de 4 metros de altura que habitam numa espécie de Éden e vivem em plena comunhão com a natureza. Eles se relacionam com o meio ambiente em um mundo idealizado, o que pode significar uma utopia inatingível para uns ou uma realidade por vir para outros, como para os que acreditam nas promessas bíblicas sobre o céu, “onde o lobo e o cordeiro pastarão juntos”.
Nunca houve, porém, na história das sociedades humanas, um povo que tenha vivido em “harmonia” com a natureza. Avatar recicla o mito do “bom selvagem”, com o adicional ecorromântico de que o homem serve à natureza. Claro que é preciso analisar com cuidado a lógica do capital disfarçada de progresso que ergue e destrói coisas belas, mas não é a natureza que existe para servir ao homem?

A espiritualização da natureza: os cientistas do filme descobrem que a natureza, em Pandora, é uma força viva e atuante. Os Na’vi invocam a natureza para ajudar na luta contra a invasão dos seres humanos. Como uma entidade autônoma, a natureza assume poderes próprios para controlar as ações dos animais, por exemplo. Aqui, a natureza não é a criação e suas criaturas, o que denota uma deificação da natureza.

A espiritualização da natureza é uma faceta das religiões da chamada Nova Era, uma reelaboração de práticas místicas antigas que têm fascinado as multidões contemporâneas que desgostam dos monoteísmos organizados e apreciam o pacifismo ambientalista. A mãe Gaia, como denominam a Terra, está representada pela atividade e interatividade de Pandora.

Em meio a tudo isso, há outro aspecto que toca os espectadores: a colonização de um povo imposta por outro. Os humanos, como vilões principais no filme, seriam os mesmos humanos que devastaram civilizações para fazer andar a roda do progresso. Tanto em Pandora como em tempos distantes e terras próximas de nós, a ganância humana aterrorizou, escravizou, assassinou e atirou uns contra os outros, sem distinção de credo, cor e lugar.

Fonte: Joêzer Mendonça. Mestre em música pela UNESP. Escreve sobre atualidades e antigüidades relacionadas à música, mídia, religião e cultura.
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