Será que temos escolha?

Quem governa a sua vida? Essa pergunta tem sido feita ao longo dos séculos porque o homem gostaria de ter a certeza de não ser um fantoche nas mãos de outra pessoa ou mesmo de forças que ele não conhece.

A ópera Carmina Burana abre com um movimento chamado Fortuna Imperatrix Mundi, que significa algo como “o Destino é que governa o mundo”. O Destino, algo contra o que não podemos lutar e contra quem não adianta se revoltar. Muitas obras épicas – e outras nem tanto – tratam disso, mostram um homem destinado a fazer algo; é o caso do Frodo de Senhor dos Anéis, dos quatro irmãos de As crônicas de Nárnia, do Luke Skywalker de Guerra nas estrelas e outros tantos. Em De volta para o futuro uma viagem no tempo muda o destino de uma família, mas a série Lost brinca com a indagação: uma viagem no tempo alteraria o curso da História ou, ao contrário, o determinaria? E pergunta também: será que temos escolha mesmo?

Será? Muitas pessoas sinceras entram em parafuso quando pensam na onisciência e atemporalidade de Deus. Se Ele sabia que Lúcifer ia fazer o que fez, por que então o criou mesmo assim? Como pode alguém que tem o poder de interferir deixar de fazê-lo? Não é isso o que Ele requer de nós, que intervenhamos para evitar e mitigar o mal sempre que pudermos? Então por que com Ele é diferente? Por que Deus muitas vezes não simplesmente age? E por que Deus não se torna co-responsável pelo mal que Ele Se abstém de evitar? Enfim: se Deus já sabe o que eu vou fazer, quem me garante que a escolha foi minha?

Bem, há nesses parágrafos mais perguntas do que eu me considero capaz de responder, mesmo que tivesse espaço infinito – e eu não tenho. Tudo o que consigo fazer é dividir com você é menos do que uma resposta, é mais uma impressão, algo assim, subjetivo mesmo. Para começar, gosto da ideia de C. S. Lewis de que “Deus esteja fora e acima da linha do tempo… Isso que chamamos ‘amanhã’ é visível para ele da mesma forma que o que chamamos `hoje’. .. Num certo sentido, ele não conhece nossas ações até que elas tenham acontecido: no entanto, o momento em que elas acontecem já é `agora’ para ele.”

O importante é que a onisciência de Deus não O impede de ficar triste quando o jovem rico vira as costas e vai embora. Não muda o fato de que estão à nossa frente “a benção e a maldição” e que devemos “escolher a quem serviremos, se a Deus ou aos outros deuses”. O fato de Deus já estar vendo a decisão que estou tomando agora do mesmo jeito que está vendo a decisão que estou tomando daqui a seis anos não muda o fato de que eu estou tomando decisões e não determina que Ele possa ir fazer uma outra coisa qualquer mais útil além de ficar à minha porta, batendo, torcendo para eu abrir para que Ele possa entrar e cear comigo.

Acontece que Deus precisa deixar que experimentemos os efeitos das nossas próprias escolhas. Não porque Ele é obrigado a isso, mas porque Ele escolheu fazer isso. É um ingrediente indissociável do amor. E Ele voluntariamente Se omite porque se não estaria invalidando nossas escolhas, mesmo que muitas vezes os efeitos das más escolhas recaiam sobre outras pessoas também. Afinal de contas, nós temos o direito de escolher fazer o mal, a nós mesmos ou a outros – porque é exatamente isso o que significa escolher não amar.

Nada muda o fato de que a escolha é sua e que você deve tomá-la agora.

Marco Aurelio Brasil, 25.09.09

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