A partida

Uma vez me pediram para falar com um grupo de adolescentes que estava usando folhas da Bíblia para enrolar maconha. Conversei com eles com carinho. Mostrei pra eles o perigo da droga e finalmente, contei do amor de Deus.

– Deus? Disse um deles, sarcásticamente, Deus não existe. Deus é um fruto da sua imaginação.

– Claro que Deus existe – respondi – e Ele te ama muito.

Um coro de risadas interrompeu o meu raciocínio.

– Vou dar à Deus a oportunidade de provar que Ele existe – disse um deles com um ar sério-. Se ele é real, vou dar-lhe trinta segundos para que me tire a vida por ter usado as folhas da Bíblia para enrolar maconha para fumar.

Os segundos passaram lentamente. Ele olhava o relógio disposto a celebrar em uma grande festa.

 – Trinta segundos – riu irônicamente – Onde está Deus?

Nunca poderei esquecer aquele incidente, mesmo depois de muitos anos. Quem venceu e quem ganhou? Quem tinha razão, afinal de contas? Aquele incidente mostrou que a paciência de Deus é muito grande para esgotar-se em trinta segundos, mas também me mostrou que o amor de Deus é muito mal interpretado.

Ele poderia ter criado você como um robô, como um computador sem a possibilidade de desobedecer. Teria sido mais fácil para Ele. Não teriam surgido complicações posteriores: nada de pecado, nem sofrimento, nem sacrifício por parte de Cristo. Por que o criou como um ser moralmente livre? Lúcifer também poderia ter sido criado da mesma maneira. Assim nunca teria abrigado no seu coração o orgulho e a ambição. Por que Deus não lhe fez um robô para obedecer? Sabe por que? Porque Ele te respeita. Se somente houvesse a possibilidade de obedecer, você não seria livre de verdade. Você seria escravo da obediência. Você faria o bem, mas não por opção, nem por escolha, mas porque não haveria a possibilidade de pecar.

Mas Deus te ama e te respeita tanto, que além da vida, te deu o dom do livre arbítrio.

Voce é livre. Livre para escolher, para decidir. Mas esse bendito dom, que deveria ser o teu maior privilégio, se transforma as vezes na sua maior tragédia.

“Da-me a parte dos bens que me pertence.” Que parte da fazenda, que o pai havia construido com suor, trabalho e sacrificio, pertencia ao filho prodigo? Entre os judeus, um filho só tinha direito a pedir sua parte da herança quando o pai morria. Pedir enquanto o pai estivesse vivo era um insulto, o cúmulo do atrevimento e a maior falta de respeito que se poderia imaginar. Era como se quizesse que o pai morresse. E olhe como somos nós os seres humanos, olhamos à Deus e dizemos: “Meu pés são meus e eu vou com eles aonde eu quiser. Minhas mãos são minhas e faço com elas o que eu quiser. Meus olhos, meus ouvidos, minha vida toda são meus, e ninguém tem o direito de me dizer o que fazer com eles. Faço o que quero, e vejo o que me der vontade. Escuto o que eu acho que é bom para mim, e ninguém tem nada a ver com isso.

Essa declaração, apresenta uma triste verdade e acaba ao mesmo tempo com um grande engano. A verdade é que, realmente, você pode fazer o que quiser ou o que lhe parecer ser bom. O engano é pensar que por isso, a vida te pertence. É uma pena que você pense dessa maneira. Mas isso não muda o amor de Deus por você. Ele convoca as forças da natureza e lhe diz: “Aos céus e a terra chamo por testemunhos diante de ti, que te pôs diante da vida e da morte, da benção e da maldição; escolha pois a vida para que você viva e também sua descendência.”

Você percebe? Diante de ti existem dois caminhos. A vida e a morte. Deus deseja que você escolha o caminho da vida mas não o obriga a fazê-lo, somente lhe mostra as consequências. Te dá o privilégio da escolha. Ele te dá, inclusive, o direito de negar sua existência e até de jogar as folhas da Bíblia no lixo e pensar que tudo não passa de uma simples bobeira. Liberdade.

Entende? Talvez nossa maior tragédia seja o fato de que não sabemos usar bem nossa liberdade.

Cada batida do coração é um milagre divino. Desde o dia que você nasceu até hoje, teu coração não deixou de bater um segundo. Trabalhou 24 horas por dia, ano após ano. Quando foi a última vez que você o mandou pro concerto? Pode alguma máquina trabalhar tantos dias, sem descanso nem de dia e nem de noite? Por que isso acontece? Por que o coração não para de bater? Porque existe um Deus que dirige tudo. Ele é a fonte de vida. A vida lhe pertence. Se Ele quizesse acabar com a vida, não precisaria nem sequer mexer os dedos. Bastaria apenas desejar, que todo o universo desapareceria. Tem então o ser humano direito de dizer: “a vida é minha, faço com ela o que quiser, e ninguém tem nada a ver com isso”? Não, não tem. Mas mesmo assim Ele respeita sua liberdade e poder de escolha.

 A parábola do filho pródigo diz que o pai não discutiu: “Ele dividiu os bens.” Quer dizer que o pai é indiferente as decisões do filho? Não, claro que não! Ele fica na expectativa. E faz tudo o possível para inspirar o filho a fazer a decisão correta. Ele o cerca com amor, cuidado e terna proteção; mas nao pode obrigá-lo a fazer uma coisa contra sua vontade. Esse é o amor maravilhoso do pai: fica num canto, olhando tristemente a partida do filho, mas não o contradiz. O ser humano se apodera da vida que Deus lhe emprestou, se transforma no senhor de suas decisões e, levado pelo desejo de conhecer e experimentar tudo, se machuca, se fere, fere ao pai, mas mesmo assim Deus não o deixa de amá-lo, nem de aceitá-lo, se ele decide voltar.

Há uma história que conta que Pedrinho era um menino pobre, que não tinha pais que podiam comprar brinquedos. A maioria dos brinquedos que tinha, haviam sido feitos por ele mesmo: pedaços de cartolina, pedacos de madeira ou tampa de garrafas, que recolhia do chão, tudo isso era material que ele usava para fabricar seus brinquedos. A história conta que seu brinquedo favorito era um barquinho de madeira. Ele o soltava na parte alta do rio e corria pela margem para agarra-lo na parte baixa. Um dia Pedrinho soltou seu barquinho como das outras vezes, e correu para esperá-lo como de costume, mas barquinho não apareceu. Ele foi então subindo pela margem do rio, procurando, mas não encontrou. Havia simplesmente desaparecido.

 Os dias se passaram, mas a lembrança do barquinho o entristecia todos os dias. Um domingo Pedrinho encontrou na feira de domingo da cidade, um homem que vendia brinquedos usados, e para sua surpresa, encontrou entre eles o seu barquinho querido.

De nada serviu reclamar nem chorar. O homem exigia uma quantia pelo barquinho e o menino teve que trabalhar bastante durante toda a semana para juntar o dinheiro. No domingo seguinte, Pedrinho correu à feira e comprou de volta seu próprio barquinho. Voltou para casa e trancando-se no quarto dizia, chorando, enquanto abraçava com carinho seu brinquedo de madeira:

 – Barquinho, barquinho, você é meu duas vezes. Meu porque eu te fiz e você é meu, e porque eu te comprei.

Entendeu a moral da história? Você é duas vezes de Deus. Você o pertence primeiramente porque Ele te criou. Mas uma dia você se perdeu e se entregou a escravidão do pecado, pelas suas próprias decisões. Então quando já não havia esperança, e não se podia ver a luz ao fim do túnel, Ele, por amor, enviou Seu filho amado e te comprou.

Agora você é dele por criação e por redenção. Poderia você ainda dizer: “A vida é minha e faço com ela o que eu quiser”?

Por Alejandro Bullón

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