Filhos

paiEstávamos num grupo bem grande de pessoas e o psicólogo que conduzia a reunião pediu que cada um dissesse qual a frase que mais caracterizava sua infância; devíamos pensar na frase que mais ouvimos ou que poderia ser apontada como o slogan designativo daquele período. Não tive grandes dificuldades para achar a minha: “eu te amo” foi a frase que marcou minha infância, pois a ouvi dos lábios da minha mãe literalmente milhares de vezes, inclusive e talvez especialmente nos dias em que não fazia muito para merecer ouvir isso.

Como eu disse, era um grupo grande de pessoas. Na verdade, um grupo muito grande, havia talvez umas oitenta pessoas. O curioso foi que a minha frase foi uma das únicas de cunho positivo em todo o grupo. As frases mais comuns eram: “você não faz nada certo, mesmo”, “1, 2, 3!”, “você quer apanhar?” ou “quantas vezes eu vou ter que te dizer…?” Aquela reunião mexeu com muita gente; houve choro convulsivo e de uma forma ou outra todo mundo se sentiu um pouco mexido por dentro.

O que acontece com uma pessoa que não teve na infância a segurança de ser amada? Suspeito que não saibamos com exatidão e que o estrago seja maior do que podemos determinar. O ser humano é profundamente carente de um pai que lhe dê essa certeza, a certeza de ser aceito, de ser apreciado, a certeza de que sua companhia é agradável a ele. Precisamos sobretudo de sentir que nosso pai confia na gente.

 Não fosse assim uma das promessas mais lindas feitas por Jesus não seria “não vos deixarei órfãos” (João 14:18), porque essa ausência do pai é muito cruel. Note que é justamente a validação do Pai o que Jesus recebe em Seu batismo – Ele ouve Deus dizer “este é meu filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 3:17). Quantas vezes você ouviu isso?

Se poucas ou nenhuma, saiba que o estrago não é irremediável. Paulo dirige-se a Timóteo como “meu filho amado” (I Coríntios 4:17 e II Timóteo 1:2), o que John Eldredge comenta com a seguinte observação: “e você pode imaginar que isso significou muito para aquele jovem aprendiz”. Mas se você não tem um Paulo, capaz de lhe falar essas palavras de validação hoje, ainda resta uma saída: “e lhes serei Pai, e vocês me serão filhos”, está escrito em II Coríntios 6:18.

Deus está disposto a ser o pai que não tivemos. Ele sabe que às vezes um mau filho precisa que Ele saia correndo, o abrace e beije, seja vestido com sua capa e use seu anel e que um novilho seja morto para celebrar sua volta, tudo isso na frente das outras pessoas. O reconhecimento do Pai preenche os espaços vazios desse tipo de orfandade causada pelo silêncio ou pela rejeição dos pais terrenos.

O instrumento para isso é Jesus Cristo, enviado “para resgatar os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos… Portanto já não és mais escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus” (Gálatas 4:5 e 7).

  Esta mensagem não está aqui escrita à toa. Deus está querendo dizer a você: “esse é meu filho amado. Eu adoro ele. Eu amo passar tempo com ele. Eu sinto a falta dele”.

Marco Aurelio Brasil, 14/8/09 ,(dedicado ao Dudu e ao Davi que, eu espero, nunca tenham dúvida nenhuma de que são muito amados).

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