O reino e a saudade

Conheci o Marcelo há exatos 20 anos. Além dessa constatação sublinhar o quão velho eu estou, releva também o fato de que, sendo amigos desde então, ambos assistiram de camarote o processo de amadurecimento um do outro. Eu acompanhei seus namoros e desencontros e ele os meus; eu testemunhei sua indecisão entre música e engenharia e ele a minha, entre direito e jornalismo; eu vi quando ele começou a namorar com a Regina e fiquei feliz por ele e o mesmo aconteceu lá quando apareci abraçado com a Tatiana; aplaudi quando a música ganhou a queda de braço com a engenharia – não sei se ele aplaudiu quando direito ganhou de jornalismo, no meu caso… – e acompanhei seus primeiros passos como regente de um coral no colégio adventista; eu estava por perto quando a Beatriz nasceu, ele estava nas cercanias quando foi a vez do Dudu e o mesmo aconteceu com o Leo dele e o meu Davi. Nos últimos tempos, passada aquela fase de susto dos pais de crianças pequenas, nossa amizade ficou ainda mais próxima e, sendo quase vizinhos, as mães se revezavam para levar os meninos pra escola.

 Há alguns sábados, contudo, ele regeu o coral na igreja pela última vez. Foi chamado para um outro colégio, em Maringá. Enquanto o coral cantava, o telão exibia fotos deles desde pequenos. Depois que acabou a música, o coral cantou outra música de surpresa para ele e sua família (“ser amigo é pra sempre/como eterno é nosso Deus…”). Muita gente chorava, claro, mas eu me segurava. Até que a Tatiana me cutucou e apontou ao Dudu. Com o rosto enterrado atrás do meu braço, meu filho tentava esconder seu choro abundante. Sua amigona estava indo embora, seu coração se quebrava pela primeira vez. Evidentemente aí foi impossível segurar o choro e lá ficamos, os três abraçados, chorando e torcendo para aquela terna cena de tortura acabar logo.

Conheci o Bernardo há 9 anos. Aquele lindo filhote de weimaraner de pêlo cinza brilhante e olhos claros mudou-se com a Tatiana e comigo para nossa casa quando nos casamos. Ele protegeu a casa, consolou-nos em momentos de angústia, lambeu os pés dos nossos filhos recém nascidos quando os apresentamos a ele, brincou de pega-pega comigo e destroçou alguns sacos de lixo também. Antes de conhecer a Tatiana eu costumava dizer que animais de estimação eram uma inutilidade inconveniente, mas há dois dias ouvi minha esposa aos prantos no telefone contar que, lá no sítio onde estão, ele começou a passar mal, foi levado às pressas a um veterinário onde foi diagnosticado o mesmo mal que atingiu o cão Marley, do livro e do filme. Ele foi submetido a uma cirurgia às pressas. Na manhã de ontem ela me ligou para dizer que ele não resistiu e morreu. E eu, o cara do “animais de estimação são uma inutilidade” derramei muitas lágrimas e estou até agora com uma sensação de perda difícil de administrar.

Sabe, na língua portuguesa, acrescentar a letra “a” no começo de uma palavra é uma forma de demonstrar a negação ou o contrário exato da mesma, como em “amoral”. Pois bem, acho que essa é a exata ideia da razão pela qual, quando nos despedimos de alguém que amamos, nos forçamos a dizer “adeus”. Não há nada mais contraditório com o caráter de Deus do que a separação.

Despedidas como essas fazem reavivar o fogo da minha saudade dessa realidade que eu não conheço senão em sonhos, a realidade onde as coisas não precisam ter um fim. O ambiente em que amizades são eternas e sem abismos, seja de distância, seja de problemas de comunicação ou de qualquer outra natureza. E os muitos motivos para chorar que tenho tido só fazem robustecer meu anelo pelo dia em que Ele me enxugará dos olhos toda lágrima. “Venha a nós o vosso reino”, portanto.

Feliz sábado!

 Marco Aurelio Brasil, 17/7/09

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